Roberto Santana Santos*

1 – Detesto o Lula. Nunca simpatizei com sua visão política. Sempre o achei não um conciliador, como alguns dizem, mas sim, alguém que capitulou. Defende o capitalismo claramente, mas com algumas melhorias para os pobres. Num país miserável como o Brasil, “metade é o dobro”, e isso muda muita coisa, daí Lula ter virado “mito”. Para quem compreende esquerda como sinônimo de revolução e anticapitalismo, Lula mais atrapalha do que ajuda.

2 – Claramente, meu não-gostar do Lula é diferente do ódio nutrido pela Casa Grande e da fração fascista da classe média brasileira. Essa gente não está nem aí se Lula roubou, se tem provas, ou qualquer coisa do tipo. Essa gente quer sangue e privilégios. Lula é um estorvo para essa turma porque ele é retirante, metalúrgico, fala “errado” e não tem diploma. Para quem acredita e vive de privilégios, isso é uma afronta maior do que xingar a mãe. Lula serviu muito bem aos poderosos (melhor do que o PSDB) e mesmo assim eles o odeiam. A Casa Grande não aceita novos sócios.

3 – Não há NENHUMA prova contra Lula no caso do triplex. Quem diz isso não sou eu, é a própria acusação, os procuradores do Ministério Público Federal. Mas isso não importa, afinal, o que são provas, não é mesmo? Dizem que há indícios, e isso basta. “Os indícios são equivalentes a qualquer outro meio de prova, pois a certeza pode provir deles”. Isso mesmo. Certeza … de indícios. Indícios equivalentes a QUALQUER prova. Está aqui: http://www1.folha.uol.com.br/…/1889969-procuradores-pedem-f…

4 – O caso do triplex está na mídia a 3 anos, o massacre midiático contra Lula é diário e mesmo assim a polícia política de Curitiba não conseguiu produzir 1 prova sequer contra Lula. Não há gravação, documento, assinatura, NADA. Ora, dizem eles, “então ele está ocultando a propriedade do apartamento”. Pois bem, então provem! Provem que Lula usa um laranja no apartamento, provem que o dinheiro da reforma chegou até ele, provem que ele criou algum mecanismo para que seu nome não apareça. NADA

5 – Frente a isso, é assustador ver que uma pessoa poderosa como Lula, com contatos no mundo todo, pode ser condenado sem provas. Se isso acontece com Lula, o que pode acontecer conosco, meros mortais? Ora, não é necessário imaginar. Basta ver os tribunais de exceção (regra?) que são instalados nas favelas das nossas grandes cidades pela polícia, onde ser negro e jovem é sinônimo de bandido e eleva a possibilidade de morte. Nosso sistema Judiciário, que parece saído de uma sociedade de corte do Antigo Regime, tamanho o privilégio e a vida sultanesca que vivem juízes, promotores e afins, onde pobres são condenados por atacado, enquanto ricos, como Aécio Neves, podem cometer o crime que for que nada acontece.

6 – Não se trata de defender Lula. Quem faz isso são seus advogados e a militância do PT. Não sou de nenhum desses dois grupos. O que queremos no caso Lula são provas, algo que sobra em casos de políticos com helicópteros e aviões cheios de cocaína pelos céus da República e nada acontece, mas com Lula não aparece uma mísera conversa de Whatsapp. Sem isso, Lula é inocente, por mais que o ódio de classe e o preconceito de alguns deseje o inverso. Todo cidadão é inocente perante a lei, até que se prove o contrário. É a acusação que tem que comprovar que alguém é culpado e não o réu provar sua inocência.

7 – É evidente que a maioria da população brasileira hoje elegeria Lula de novo como presidente da República. Tentar condená-lo sem provas evidencia que na verdade a ação é política. Mais uma vez, os poderosos desse país estão retirando o direito do povo de escolher seu presidente, porque simplesmente a escolha mais provável hoje não agrada a casta dos privilegiados do país. A condenação de Lula é parte do golpe, retira o provável vencedor da corrida eleitoral e é anunciada, estrategicamente, um dia após a hecatombe da Reforma Trabalhista, que promete um futuro de miséria e violência assustadora para a maioria da população (a mesma que votaria no Lula). A questão é de classe e o outro lado joga para vencer. Defender, hoje, que Lula está sendo perseguido e sua condenação é ilegal, é exigir o mínimo de civilidade, é exigir que as grandes decisões políticas do país não sejam tomadas pelo 1% da população que deseja restringir a politica a seus espaços, retirando a participação da população por grandes e pequenos golpes.

PS: Para os companheiros e companheiras que leem, urge reorganizarmos a esquerda no Brasil, pós-Lula e pós-PT. Do jeito que está não vai. E não se enganem, muita coisa nova é bem-vinda, mas tem muita coisa antiga que foi deixada para trás e que precisa ser retomada na esquerda brasileira. “Viveremos e venceremos”

Roberto Santana é historiador e professor de história, com graduação e mestrado pela UERJ, doutorando em Políticas Públicas pela mesma instituição. Secretário Executivo da REGGEN (Rede de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável) da UNESCO. Autor do livro “Coronéis e empresários: da esperança da transição democrática à catástrofe neoliberal”.


Fonte: Brasil em 5 via Eu e o Lula, em 7 pontos

Eu e o Lula, em 7 pontos
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