Boa tarde, a todos os presentes neste recinto; e também a todos os que seguem os canais de comunicação desta casa Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Queremos nos apresentar: somos a Comunidade Vila Arthur de Sá; instalada na Regional Nordeste, no bairro União em Belo Horizonte. Ali neste espaço habitamos e coabitamos por mais de 30 anos; localidade onde vivemos e nos movimentamos como em outras partes desta cidade.

E, estamos ali, bem antes de alguns acontecimentos que só vieram a existir posteriormente. Vimos o tempo passar ali, nessas mais de três décadas; o que fizeram que nossos olhos e até ouvidos ficassem atentos a cada acontecimento à volta ou próximos da vila e da comunidade. Inclusive alguns destes acontecimentos pretendemos narrar aqui de maneira abreviada por causa do tempo limitado que teremos. Portanto passaremos aqui apenas um pequeno histórico dos acontecimentos que nos trouxeram para esta importante audiência pública que busca o sempre excelente caminho da conciliação.

Para isto vamos recuar e voltar no tempo. Como temos pelo menos duas gerações convivendo ali neste mais de 30 anos; só a primeira geração se lembrará casos antigos que precisaremos narrar aqui aos nossos ouvintes, para que lhes sirvam de testemunho.

Começaremos por exemplo: pela época em que muitas das ruas do bairro União não tinham sequer asfalto ou a modernidade de hoje. Vimos então o asfalto sendo aplicado em muitas dessas ruas; vimos a avenida Cristiano Machado recebendo diversas obras de modernização; vimos bairros anexos e vizinhos com grandes vazios de terrenos baldios que foram sendo ocupados por construções modernas e que hoje são bairros de classe media que cercam a comunidade da Vila Arthur de Sá; vimos a chegada e construção do Minas Shopping e do antigo Hipermercado Paes Mendonça (atualmente Extra Hipermercados); vimos a construção do Minas Casa; vimos a construção do Ouro Minas Palace Hotel e a expansão de outros hotéis que também se instalaram; vimos a ampliação do metrô da capital que culminou com a construção da estação Minas shopping em frente a nossa comunidade; vimos a ampliação e avanço destas obras até ao que hoje conhecemos como Estacão Shopping Vilarinho em Venda Nova.

 

Vale aqui lembrar que antes da estação da chegada de muitos destes modernos empreendimentos; moradores mais antigos podiam por exemplo: andar em trilhos da rede ferroviária, podiam nadar e pescar pequenas piabas, podiam contemplar a vegetação nativa que ainda ali existia com sua enorme quantidade de pássaros, cigarras, borboletas, vaga-lumes e até animais peçonhentos.

Naquele enorme espaço era possível brincar e se divertir ao lado da natureza; podia correr atrás da bola nas famosas peladas das manhãs e tardes de domingo; enquanto outros preferiam peteca ou voleibol; outros queimadas; outros soltar papagaios e pipas; outros bolinha de gude, outros amarelinha; pique esconde e outros momentos inesqueciveis vividos ali.

Mas shoppings, hotéis, edifícios modernos, e o metrô assumiram de vez estes espaços; e fomos recuando para nosso hoje pequeno espaço. Foi ai que começamos a perceber algo: a modernidade criou um território de disputa imobiliária que não para de dar frutos ate o presente momento.

Prova disto é que conhecemos um tal termo técnico que se chama: especulação imobiliária. Descobrimos que aquela região pelo seu elevado valor imobiliário recebeu o título de Vetor Norte da capital. Algo ainda mais grandioso estava um pouco mais avante sendo construído; era o Aeroporto de Confins na sequência da avenida Cristiano Machado em direção a BR MG 20.

Então olhem que situação. Sem pedirmos nenhum privilegio, estávamos no centro e caminho de privilegiados. Pois mobilidade urbana é que não falta naquela localização. É um enorme conforto para ir e vir, com facilidade e encurtamento de tempo para qualquer tipo de atividade, pois pode se ir e vir a qualquer parte da Grande BH de onde estamos. O tempo ali se torna curto e objetivo. E, isto vicia nosso viver ou de quem ali vai viver.

Até este momento dos fatos, estávamos e éramos anônimos e invisíveis a certos interesses e intenções do poder público municipal e dos futuros empreendedores. Vale dizer isto porque até para instalar saneamento básico, passamos por um longo processo de demora e lutas junto a órgãos que se dispuseram a estar do nosso lado neste direito básico.

 Bom, para abreviar mais ainda nosso falar; vamos aos fatos mais recentes que nos trouxeram estas condições justas e democráticas que esta renomada Casa permite aos reclamantes e aos interessados. Porque nossa situação, que outrora era de conforto e paz; se tornaram num sentimento de impotência, fragilidade e até medo. Medo dos fantasmas assombrosos da incerteza do futuro. Já que moradia é um assunto muito sério e muito delicado.

Quando começamos a participar dos primeiros contatos reuniões a respeito da Via 710, que cujo um dos objetivos era ligar a Regional Leste até a Regional Nordeste onde estamos focalizados. Também tinha por alvo desafogar o trânsito carregado da avenida Cristiano Machado. E, naquelas reuniões ouvimos muitos engenheiros e tecnicos do assunto quanto a nova via e quanto permanência ou não da comunidade na vila e no bairro. Foi onde garantiram que de forma alguma a comunidade seria afetada ou extinta. Sendo assim aquietamos e descansamos sobre estas informações.

Mas mais avante, notamos que um antigo terreno apelidado de Mendes Junior por causa da famosa construtora mineira que ali se instalou durante anos para executar obras na Cristiano Machado e entorno. Foi neste enorme terreno em frente a vila e que hoje abriga o empreendimento do Center Minas que nos deparamos com manobras ofensivas vindas do poder municipais representadas pela Urbel e Sudecap para com os moradores da vila. Estava armado então o palco de disputa pela área da comunidade Vila Arthur de Sá. Prefeitura e empreendedores adentraram nossas vidas, nossa privacidade e nossos direitos em busca de assumir toda aquela área agora valorizadíssima.

Foi a partir deste marco divisório na vida dos moradores; que vimos que aquele projeto milionário que hoje abriga lojistas famosos como: Leroy Merlin, Declaton Sports, Supermercados BH, Lojas Rede, Faculdade UniBH, dentre outras marcas mexeriam que não saibam com nossas vidas.

A esta altura o assédio do poder municipal estava mexendo seus pauzinhos com a vida de cerca de 98 famílias que ali viviam harmoniosamente. E, usando métodos de negociação separados e questionáveis; o poder municipal começou a dissolver a comunidade em etapas e ondas que reduziram a comunidade em mais de 70%; ficando restando apenas os atuais 30% de 26 famílias que ainda bravamente resistem bravamente.

Pior que isto eram e são os valores medíocres e baixos de indenização que giram na media na casa dos R$ 40.000 abaixo ou pouquíssimo acima. Não bastasse esta injustiça, a Urbel/Sudecap/PBH; enviou para as famílias resistentes e separadamente intimações na justiça; justamente contra pessoas de bem que ali ocupavam o espaço por mais de trinta anos. Assustados e sem saber o que fazerem procuramos ajuda.

Conhecemos nossos primeiros parceiros de luta organizada. Fomos apresentados às Brigadas Populares, que abriram portas e pessoas dos direitos humanos como a Defensoria Pública Estadual, a Defensoria Pública Da União e o Ministério Público Federal. A partir daí começamos uma luta mais justa.

Descobrimos que a detentora real do terreno em que estamos nunca foi de fato o poder municipal; mas sim, o poder federal, por meio da SPU. Que havia com boas intenções uma extensiva faixa de terras da União ao poder municipal para que facilitassem o acesso as obras da Via 710. Porém, não incluía o setor onde moramos.

Ou seja, a PBH, agiu e ocultou este fato importante aos moradores.

A partir de então tudo se tornou psicologicamente desgastante para todos os moradores da vila e de toda a comunidade; principalmente os mais antigos. Mas pessoas humanas, trouxeram vacinas de motivação e esperança, que foram aplicadas sobre os efeitos danosos que o poder municipal e empreendedores espalharam em nossas mentes e sentimentos.

Mas, estamos aqui lutando contra o preconceito de classes. Sabendo que ricos e pobres podem dividir o mesmo espaço de convivência. Mesmo porque em todo o planeta; ricos e pobres dependem sistematicamente um do outro. Pois sabemos que nesta relação um prestará serviços e o outro retribuirá como o reconhecimento financeiro destes serviços.

Para finalizar queremos dizer que; desde o início desta situação, procuramos entender a necessidade do que acontece ao lado da Via 710, que em momento algum obstrui ou cruza tal via de importância para a cidade. Mesmo porque, a vila passa 50 metros ou mais acima da Via 710. Somos a favor do melhor para nossa cidade mas não da forma como o poder municipal impõe aos seus cidadãos que elegem seus gestores, inclusive os atuais e os anteriores.

Por falar nisto; queremos uma relação mais amistosa e humana com o novo gestor e sua nova administração. Que ao parece até aqui tem tido uma boa relação com os cidadãos belo-horizontinos de todas as classes; bem diferente da gestão elitista anterior que era preconceituosa e bairrista.

Aos empreendedores queremos dizer que também somos consumidores neste país e até mesmo no seguimento de negócios que vocês planejaram. Por favor não nos excluam de maneira alguma, pois estamos de olho. Se necessário iremos dentro da lei, fechar acessos aos vantajosos lucros que temos percebido frente nossa comunidade. Só queremos o que direito nós estamos reivindicando que é o direito à moradia dentro do coração de onde hoje nós habitamos por mais de 30 anos. Obrigado a todos!
“Estamos aqui lutando contra o preconceito de classes”, relata Robson Knofel, morador da Vila Arthur de Sá em BH, na ALMG

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