Os últimos acontecimentos no país, especialmente desde o dia três de março, quando foi vazada pela revista IstoÉ a delação premiada do senador Delcídio do Amaral, colocaram novamente a Rede Globo no centro do tabuleiro político brasileira. No mesmo dia, o Jornal Nacional dedicou uma edição praticamente exclusiva para o vazamento e, no dia seguinte, cobriu o dia toda a condução coercitiva de Lula e seus desdobramentos. Foram dias de espetáculo, especulação e desinformação. Tudo leva a crer que os principais grupos de comunicação sabiam da condução coercitiva no dia anterior e estavam preparados para o show. A aliança midiático-judiciária, Lava Jato-Globo, ficou explícita e a movimentação começou a ganhar contornos de golpe.

De lá pra cá, os telejornais tornaram-se praticamente monotemáticos. Quatro eventos com suas devidas coberturas podem ser destacados: as manifestações do dia 13, pró-impeachment, celebradas ao longo de todo o domingo e coroadas pela edição do Fantástico; o vazamento ilegal de conversa entre Lula e Dilma no dia 16, como uma grande bomba nacional; a posse de Lula como ministro no dia 17, com a frase “um tapa na cara dos brasileiros” reproduzida, literalmente ou não, em todos os jornais; e as manifestações do dia 18, contra a saída de Dilma, que visivelmente surpreenderam e aborreceram os apresentadores, que passaram a jogar todas as fichas em Gilmar Mendes, ministro mais tucano do STF, que tenta suspender a posse do ex-presidente e para facilitar uma prisão orquestrada por Sérgio Moro.

O povo não é bobo

Virou lugar-comum há muito tempo dizer que a Rede Globo tenta manipular sua audiência, o povo brasileiro. E não é novidade que o povo desconfia dos grandes meios. Todos os dias, em todo noticiário, em todo capítulo de novela, transmite-se em maior ou menor intensidade os valores das elites. No jornal, quando a pobreza é só assunto de polícia, nas novelas quando a vida dos ricos é naturalizada e objeto de desejo. São inúmeros os exemplos que podem ser encontrados em apenas um dia de programação.

Ainda assim, muita gente (e mesmo aquela dita parcela crítica do povo) segue se informando e também se entretendo direta ou indiretamente pelos grandes meios de comunicação de massa. É claro que a mídia tem posição e está do lado do 1% mais rico da população, mas ela também tem contradições e disputas internas, e o que é mais importante: responde a necessidades sociais reais.

Em tempos tranquilos e estáveis, no caso do jornalismo especificamente, a ideologia das elites aparece sutil, bem embalada sob os papéis reluzentes da imparcialidade, direcionando o sentido das matérias com entrevistados e informações escolhidas a dedo, mas que passam batido, ou no mínimo não causa tanto espanto. Ainda assistimos ou lemos (seja na internet, na TV ou no papel) os grandes meios porque eles (ainda, até quando?) têm algo a oferecer: informação, notícia. Para que tenham o mínimo de credibilidade, eles têm de noticiar os eventos do mundo, mesmo que possam contrariar seus interesses. Os fatos apenas representam a realidade e a mídia pode interpretá-lo de maneira completamente conservadora, mas há neles uma parte objetiva, o acontecimento, a essência da notícia, que os jornais têm de apresentar e que realmente nos interessa. São informações e conhecimentos que nos localizam no mundo do tempo presente e que podem ser absorvidas de maneira crítica e até revolucionária.

Quando caem as máscaras

Mas em tempos de crise perde-se o pudor e o frágil elo de compromisso do jornalismo-negócio com os fatos é rompido quando se transforma de vez em propaganda. Entre os eventos mencionados acima, a leitura e encenação dos grampos ilegais ao vivo no Jornal Nacional é o mais ilustrativo. Naquela edição do dia 16, ambos os apresentadores representaram o que há de pior no jornalismo-propaganda. Ao encenarem as conversas gravadas, deixaram explícito que a intenção do jornal não era de informar, muito menos de contextualizar, mas sim de mexer com as emoções do público.

A Rede Globo ignorou a falta de competência de Sérgio Moro para grampear a presidenta e o fato de que todas as gravações que não trouxessem sequer indício de crime deveriam ter sido destruídas. Os palavrões de conversas pessoais vazadas ilegalmente por Moro tinham um único motivo: abastecer o movimento pró-impeachment e inflamar a população para o confronto nas ruas. A estratégia aqui é lidar com as emoções mais profundas, com o inconsciente, é a ideologia em sua força máxima, mobilizando o comportamento das pessoas às ruas com sentimentos de ódio, intolerância e preconceito.

É incompatível tanto poder nas mãos de apenas 11 famílias dessa elite brasileira retrógrada. O enfrentamento aos oligopólios, completamente abandonado pelos governos petistas, tem de ser tarefa prioritária dos movimentos pela democratização da comunicação. A Rede Globo, bem como a maioria dos grandes meios brasileiros, é ilegal, fora da lei. Operam serviços públicos acima da Constituição Brasileira. Na falta de uma lei regulatória específica, que dê eficácia ao texto da constituinte, apoiam-se em todas as brechas jurídicas possíveis e impossíveis.

Mas além da regulação econômica, escandalosamente negligenciada, há um outro tipo de regulação que temos de debater, que é sobre os conteúdos veiculados. Trata-se de pensar um controle público que possa avaliar abusos como o que temos assistido e orientar os meios de comunicação para as necessidades do povo brasileiro. Segundo a Constituição, as empresas radiodifusoras, por operarem como concessões públicas, devem produzir conteúdos preferencialmente informativos, educativos e culturais, além de ter de oferecer contrapartidas sociais aos brasileiros.

Inimiga do povo

A Rede Globo é uma das principais investigadas na operação Zelotes, da Polícia Federal, que tem como alvo uma roubalheira de bilhões de reais feita por grandes empresas. A Globo sempre escondeu a corrupção de políticos amigos, de grandes empresários e até da CBF. A Globo abusa de seu poder e chantageia os governos para não pagar impostos e ainda receber bilhões em verbas de propaganda, que deveriam ser investidas em educação, saúde, moradia. Enfrentar a Globo é enfrentar velhos coronéis da ditadura, como as famílias Sarney e Collor, donas das emissoras no Maranhão e Alagoas.

A Rede Globo segue impune porque sabe defender seus próprios interesses desde que nasceu, em 1965, impulsionada pela ditadura militar e pelo capital estrangeiro, de forma ilegal. Assim constituiu-se como um dos principais atores políticos do país, em relação estreita com os Estados Unidos, e tendo como principal interesse a completa desregulamentação das comunicações.

É preciso conhecer nosso inimigo e saber como opera na linha de tênue entre necessidades sociais e manipulação, entre conhecimento e ideologia e entre legitimação e desconfiança social. O monstro é grande, por isso é preciso ataca-lo por todos os lados: na contrainformação nas redes, com midialivrismo e comunicação popular, na articulação com setores institucionais, na denúncia e nas mobilizações de massas por um novo marco regulatório.

Mas o monstro só cai quando caírem junto as demais concentrações de riqueza que seguem estruturando o atraso brasileiro. A democratização da comunicação deve ser entendida e defendida como uma das reformas de base estratégicas para o acúmulo de forças para transformações profundas no país, ao lado das reformas agrária, urbana, político e fiscal. Não basta difamar o “PIG”, é preciso acabar com sua ração.

O povo brasileiro vai se defender e deve vencer o golpe jurídico-midiático. Que essa resistência produza uma saída para a crise e nos dê munição para enfraquecer a Rede Globo.

Frente de Comunicação das Brigadas Populares

Como opera a Rede Globo em tempos de crise

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